05 mar de 2026
Guerra no Oriente Médio pode afetar exportações de carne bovina do Brasil, diz Abiec

“A situação é preocupante”, diz Perosa, acrescentando que os exportadores brasileiros terão que reduzir a produção devido ao aumento dos custos de frete e à incerteza logística

Os exportadores brasileiros de carne bovina estão preocupados com um possível prolongamento do conflito no Oriente Médio, destino de cerca de 10% das exportações brasileiras de carne bovina, disse Roberto Perosa, presidente da Abiec, associação que representa os exportadores de carne bovina, em entrevista à Reuters.

“A situação é preocupante”, afirmou Perosa, acrescentando que os exportadores brasileiros terão que reduzir a produção devido ao aumento dos custos de frete e à incerteza logística geral causada pela guerra.

O executivo afirmou que o custo do frete para enviar produtos cárneos para uma zona de conflito é proibitivo. “O custo do envio de um único contêiner de carne bovina da América do Sul para o Oriente Médio triplicou em alguns casos, chegando a US$ 6.000”, disse ele, segundo o texto da Reuters.

Fotos: Rodrigo Pertoti/Abiec

Perosa disse ainda que as empresas da Abiec estimam que de 30% a 40% das remessas também passam pelo Oriente Médio antes de chegar aos mercados do Sudeste Asiático e da China, o que torna a situação extremamente preocupante. “Não há nada que possamos fazer; está fora do nosso controle”, afirmou.

A Abiec representa grandes empresas de processamento de carne bovina listadas na bolsa de valores, incluindo Minerva, JBS e MBRF.

A reportagem da Reuters lembra que a JBS e MBRF possuem instalações de processamento de carne no Oriente Médio, para onde se mudaram nos últimos anos após os governos locais decidirem reduzir a dependência das importações de alimentos.

Muito além do Irã

Segundo observa a Agrifatto, os ataques norte-americanos e israelense tendem a comprometer comércio nas principais rotas logísticas do Oriente Médio, prejudicando não só o Irã, mas os outros países da região, alguns deles importantes parceiros comerciais do Brasil.

Na avaliação da consultoria, além do Irã, os países do Oriente Médio mais diretamente afetados pelo atual conflito são: Arábia Saudita, Jordânia, Israel, Líbano, Síria, Iêmen, Iraque, Omã e Emirados Árabes Unidos.

Em conjunto, eles representaram o equivalente a 14,52% do volume total exportado em 2025 das três principais proteínas animais brasileiras (carne bovina, frango e suíno) e 12,09% do faturamento do setor.

“Trata-se de um bloco com relevância comercial expressiva e maior exposição a impactos sobre transporte marítimo, custos de seguro, prazos de embarque e fluxo financeiro internacional”, relata a Agrifatto.

Segundo a consultoria, a instabilidade amplia riscos especialmente em corredores estratégicos como o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez.

“O aumento da percepção de risco costuma elevar prêmios de seguro marítimo, pressionar fretes e alongar prazos de entrega”, diz a Agrifatto, acrescentando: “Em episódios anteriores de tensão na região, observou-se encarecimento temporário da logística e redirecionamento de rotas, fatores que afetam diretamente produtos de maior volume e menor margem unitária, como as proteínas animais”.

Entre as proteínas exportadas pelo Brasil, a carne de frango é a mais exposta dentro do grupo analisado, aponta a Agrifatto. Em 2025, foram enviadas 1,27 milhão de toneladas para os dez países do Oriente Médio citados pela consultoria, volume que representou 24,55% do total exportado pelo setor.

Os Emirados Árabes Unidos responderam por 37,84% desse montante e Arábia Saudita por 31,32%, evidenciando elevada concentração, observa a consultoria.

“No curto prazo, os impactos tendem a se concentrar na logística e no custo financeiro das operações. Parte dos contratos já firmados deve ser honrada, mas eventuais atrasos, aumento de seguro e oscilações cambiais podem pressionar margens”, afirmam os analistas da Agrifatto.

A carne bovina ocupa a segunda posição em volume embarcado para o conjunto dos dez países da região. Em 2025, aponta a Agrifatto, foram destinadas 205,57 mil toneladas de carne bovina a esses mercados, equivalentes a 5,66% do total exportado pelo Brasil.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos concentraram 57,06% das exportações do produto enviado aos países mais afetados.

“No curto prazo, a tendência é de menor volatilidade em comparação ao frango, uma vez que o mercado de carne bovina opera com contratos de maior valor agregado e maior flexibilidade de redirecionamento para outros destinos, especialmente na Ásia”, dizem os analistas da Agrifatto.

No entanto, no médio prazo, caso a instabilidade resulte em restrições financeiras mais severas ou em desaceleração econômica regional, pode haver redução do ritmo de compras, alongamento de prazos de pagamento e maior seletividade nas negociações, acrescenta a consultoria.

Além disso, continua a Agrifatto, elevação consistente do frete impacta diretamente a competitividade relativa do Brasil frente a concorrentes mais próximos geograficamente do Oriente Médio.

No caso da carne suína, embora a participação regional seja menor em função de restrições religiosas predominantes em parte dos países analisados, houve crescimento expressivo entre 2015 e 2025. O volume exportado avançou 204,36%, passando de 5,73 mil toneladas para 17,46 mil toneladas. Os Emirados Árabes Unidos concentraram 96% desse total, com 16,75 mil toneladas adquiridas em 2025, informa a Agrifatto.

Irã, um caso à parte

Segundo recorda a Agrifatto, o Irã assumiu protagonismo nas compras de carne bovina brasileira a partir de 2010, após dificuldades enfrentadas pelo Brasil no mercado russo.

“Essa relação se manteve relativamente estável até 2020, quando sanções comerciais passaram a atingir diretamente o sistema financeiro iraniano”, relembra a consultoria.

O bloqueio de 18 bancos e de seus recursos comprometeu os canais formais de pagamento e inviabilizou o fluxo direto de importações.

Diante desse cenário, conta a Agrifatto, estruturou-se um corredor alternativo de abastecimento via Emirados Árabes Unidos, que passaram a mediar parte das operações comerciais.

“Por meio de canais informais e de difícil rastreabilidade logística e financeira, manteve-se o fornecimento ao mercado iraniano”, observa a consultoria.

Esse rearranjo, diz a Agrifatto, contribui para explicar o avanço da participação dos Emirados no volume total de proteínas animais enviadas pelo Brasil, que passou de 8,63% em 2015 para 11,16% em 2025, incremento de 2,52 pontos percentuais, enquanto as compras diretas do Irã perderam representatividade estatística, com recuo de 1,58 ponto percentual no mesmo período.

Impactos no comércio de gado vivo

Grande parte das exportações brasileiras de animais vivos tem como destino países do Oriente Médio, região que enfrenta uma escalada de tensões militares após uma série de bombardeios conduzidos pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Na avaliação da Agrifatto, em comparação ao comércio de carne bovina, o setor de “gado em pé” é mais sensível a eventuais restrições logísticas e sanitárias, dada a natureza do produto e a necessidade de rotas marítimas específicas.

Em 2025, um conjunto de dez países do Oriente Médio – Irã, Arábia Saudita, Jordânia, Israel, Líbano, Síria, Iêmen, Iraque, Omã e Emirados Árabes Unidos – representaram 30,27% (ou 318,87 mil cabeças) sobre o total exportado, de 1,05 milhão de cabeças.

Sozinho, o Iraque respondeu por 53,22% desse montante regional, seguido pelo Líbano com 24,12% de participação, e pela Arábia Saudita, com 16,03%.

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Fonte: Portal DBO

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