23 mar de 2026
Formação ou Exercício Profissional na Agronomia: O que vem primeiro?

Kleber Santos, engenheiro agrônomo, membro da ABCA

Distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável

A qualidade da formação está diretamente associada ao exercício profissional: a atuação do engenheiro agrônomo, sob a natureza eclética, holística e sistêmica, depende de formação condizente! Trata-se de questão de primordial importância nestes tempos de forte internacionalização das relações socioeconômicas.

O Decreto 23.196, de 1933, é claro ao estabelecer, com força de lei (o Decreto foi outorgado e não regulamenta outro instrumento legal), as atribuições do engenheiro agrônomo em diferentes áreas, como fitotecnia e zootecnia, administração e economia agrícola, cooperativismo, engenharia, paisagismo, entre outras atividades.

Mas o ensino nos cursos de Agronomia (ou de Engenharia Agronômica, ambos os termos são citados na resolução do MEC que trata das Diretrizes Curriculares) precisa estar alinhado à ampla formação prevista em lei. E a questão não é modificar o Decreto de 1933, pois ele fixa bases que permitem incorporar as sucessivas inovações tecnológicas e gerenciais. E aqui caberia uma primeira observação: se o arcabouço da profissão prevê amplas atribuições (que estão encampadas nas Diretrizes Curriculares), faria sentido alterar a legislação a cada inovação, se é próprio da profissão a dinâmica tecno-gerencial que impulsiona o agronegócio?

A questão central é a qualidade do ensino! Quando se fala em cursos 100% a distância, quando se observa a criação de projetos político-pedagógicos segmentados, sem a amplitude das atribuições profissionais …. é aí que deveria estar o ponto de batalha!

E digo mais: a internacionalização das relações comerciais demanda ainda mais qualidade na formação, à medida em que a profissão é requisitada justamente por possuir visão holística e atuar, amiúde, em todo o processo produtivo. Os acordos comerciais se multiplicam, de forma bilateral ou multilateral, integrando processos e evitando segmentações (vide a construção do Acordo MERCOSUL-União Europeia): qual profissional teria atribuição integrada nos processos produtivos envolvendo produção animal e vegetal, contexto de paisagem e visão administrativa? O engenheiro agrônomo!

Também caberia destacar a Sustentabilidade, nas diferentes dimensões, como fator de crescente demanda sobre esta maravilhosa Profissão! Seja no enfrentamento às mudanças climáticas, combate à perda da biodiversidade, ou luta contra a poluição … mediante gestão e tecnologias sustentáveis para produção de alimentos, fibras, energia e, até mesmo, serviços ambientais!

Felizmente, existem instituições com a missão de preservar o conhecimento agronômico, como a Academia Brasileira de Ciência Agronômica. Também é digno de registro a criação, em 2010, do Departamento de Educação, no âmbito da Confederação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil (CONFAEAB), conduzido sob a liderança do Eng. Agrônomo Almir Gnoatto e fantástica equipe de professores. No campo do Sistema Profissional, cabe destacar ainda o papel do Sistema CONFEA/CREAs, respeitada a competência de fiscalização do Sistema Educacional pelo MEC.

Mas é preciso atentar para a multiplicação dos cursos de Agronomia e o risco de redução do campo de atuação caso não ocorra sério tratamento sobre a qualidade da formação. Diagnósticos apontam para esta preocupação!

No contexto de cursos e vagas ofertadas na agronomia, segundo dados do Sistema Emec (2024) existem quase 600 cursos de agronomia autorizados para funcionamento; destes 549 são da modalidade presencial e 44 são da modalidade EAD, oferecendo 112.571 vagas, sendo 54,2% na modalidade EAD e 45,8% presenciais. Do total das vagas de agronomia 97.231 (86,37%) são oferecidas pelo ensino privado e 15.340 (13,63%) pelo ensino público na modalidade presencial. Segundo Oliveira (2023) apenas 04 IES privadas com e sem fins lucrativos, detêm 73,3% das vagas autorizadas dos Cursos de Agronomia, na modalidade de Ensino à Distância totalizando 38.100 vagas. De fato, é muito preocupante!

A presencialidade é essencial na formação agronômica – sem dispensar as vantagens do uso da internet e da inteligência artificial. Daí também a importância de buscar informações que apontem sobre a necessária integração entre ensino e exercício profissional. É o caso, por exemplo, de conhecer os indicadores de evasão, retenção e demanda de estudantes de Agronomia no Brasil (trabalho neste sentido é liderado pela Eng. Agrônoma Prof. Angela Cristina Paviani).

Voltando à questão das exigências requisitadas pelos tempos de inserção internacional, a formação alinhada às atribuições amplas do engenheiro agrônomoprecisa também estar reforçada na implementação da curricularização da extensão universitária nos Projetos Pedagógicos de Curso (PPC), valorizando as experiências de extensão em Cursos de Agronomia no Brasil. Também o incentivo às experiências bem sucedidas de mobilidade acadêmica e profissional, nacional e internacional, para as IES, Conselhos Profissionais e das Entidades de Classe.

O crescimento do número de cursos de Agronomia não seria problema quando o alvo é a qualidade. Essa característica é ainda mais demandada nesta época de intensa profissionalização e propagação da Agronomia brasileira no mundo inteiro!!

Concluindo, o que vem primeiro? A formação, que precisa estar alinhada com as atribuições estabelecidas por lei para o pleno Exercício profissional do Engenheiro Agrônomo!!

O texto expressa a opinião do autor e não necessariamente aquela da ABCA.

Kleber Santos

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