Uso consciente de antimicrobianos na pecuária: do manejo à responsabilidade sanitária
*Ana Doralina Menezes
O uso responsável de antimicrobianos na pecuária está diretamente ligado à saúde do rebanho, à eficiência produtiva e à capacidade do setor de atender às crescentes demandas sanitárias e de mercado. Vai além de uma discussão técnica e se conecta a uma abordagem mais ampla, conhecida como One Health, que reconhece a relação entre a saúde animal, humana e ambiental. Na prática, isso significa que decisões tomadas dentro da fazenda têm impactos que vão além da porteira, influenciando a segurança dos alimentos, a eficácia dos tratamentos e a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Mais do que uma tendência, trata-se de uma mudança de direção para a pecuária. O uso racional de antimicrobianos está diretamente relacionado à forma como os animais são manejados no campo e ganha ainda mais relevância diante do avanço da resistência antimicrobiana, hoje um dos principais desafios sanitários globais. O uso inadequado pode reduzir a eficácia dos medicamentos ao longo do tempo.
Nesse cenário, a pecuária tem um papel relevante. E a principal alavanca não está na restrição de uso, mas em usar melhor – de forma responsável e com base técnica.
Práticas de manejo bem conduzidas são determinantes para prevenir doenças e, com isso, promover o uso responsável de antimicrobianos. É no manejo bem-feito que se constrói a saúde do rebanho. Sistemas bem manejados reduzem perdas, melhoram o desempenho e diminuem a necessidade de intervenções, ao reduzir estresse, evitar lesões e favorecer a imunidade dos animais. O bem-estar animal se consolida como uma ferramenta prática para sustentar a saúde do sistema produtivo e apoiar o uso responsável.
Outro ponto importante, e que ainda gera confusão, é que nem todo uso de antimicrobianos segue a mesma lógica. Enquanto na medicina humana o uso está, em geral, associado ao tratamento, na produção animal pode assumir diferentes formas de utilização. O ponto central, portanto, não é apenas como usar, mas garantir que essas práticas estejam alinhadas à sua finalidade, com base técnica e responsabilidade sanitária.
Esse direcionamento está alinhado às recomendações internacionais e à legislação brasileira, que vem evoluindo para apoiar o uso responsável de antimicrobianos. Mais do que uma exigência regulatória, trata-se de uma mudança de abordagem: sair de um modelo que reage à doença, baseado no tratamento, para um modelo preventivo, com foco em manejo e saúde do sistema produtivo.
É nesse contexto que a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável avança na construção de um novo material que evidencia como o bem-estar animal atua como ferramenta para o uso racional de antimicrobianos e reforça o papel da pecuária como parte da solução para desafios sanitários e ambientais.
O uso responsável de antimicrobianos não se resume a usar menos, mas a usar melhor, prevenindo, manejando com eficiência e tratando com critério. O bem-estar animal é parte prática dessa equação.
*Ana Doralina Menezes, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável.