12 jun de 2026
Soluções nutritivas: como a semi-hidroponia está transformando a produção do pepino japonês?

Por Felipe Vicentini Santi, especialista em agronegócio, com formação em Gestão Ambiental e Gestão em Agronegócio. Possui pós-graduação em Agricultura de Precisão, Engenharia Ambiental e MBA em Agronegócio, e é mestrando em Mudanças Climáticas. Atua há 18 anos no setor, com experiência em grãos e horticultura. 

Com a crescente busca por sistemas agrícolas mais eficientes e sustentáveis, a semi-hidroponia vem ganhando espaço na produção de hortaliças de alto valor agregado. Nesse contexto, as soluções nutritivas desempenham papel fundamental ao fornecer todos os nutrientes necessários para o desenvolvimento de diversos tipos de plantas, substituindo parte das funções exercidas pelo solo e permitindo um controle muito mais preciso sobre a produção. Entre as culturas que têm apresentado resultados promissores está o pepino japonês, uma hortaliça de grande importância econômica e alimentar.

Compostas por água e fertilizantes balanceados, as soluções nutritivas fornecem macronutrientes e micronutrientes essenciais para atender às exigências de cada cultura. No caso do pepino japonês (Cucumis sativus L.), espécie de crescimento rápido e elevada demanda nutricional, o manejo adequado da solução e o monitoramento constante do pH e da condutividade elétrica são fatores decisivos para garantir produtividade, qualidade dos frutos e viabilidade econômica da produção. Além disso, o sistema semi-hidropônico contribui para o uso mais eficiente da água e dos fertilizantes, reduzindo desperdícios e impactos ambientais, dessa forma, o equilíbrio nutricional é essencial para cada fase da cultura, como descrito na (Tabela 1) no formato de gramas para cada 1.000 litros.

Para avaliar o potencial desse modelo produtivo, conduzi um experimento com o pepino japonês híbrido Kouki em sistema semi-hidropônico protegido (estufa), no município de Boa Vista, em Roraima. O cultivo utilizou substrato inerte composto por areia e casaca de arroz carbonizada, e uma formulação nutricional adaptada a partir de recomendações técnicas já consolidadas para este sistema. A condutividade elétrica (CE) e pH da solução nutritiva foi monitorado e ajustado à faixa de CE de 1,5 a 2,5 e pH de 5,5 a 6,5. Sendo que na maioria das vezes ajustou-se CE de 1,8 e pH de 6,0 na fase de crescimento, e CE de 2,1 e pH de 6,0 na fase de frutificação. A temperatura média da solução nutritiva foi de 27⁰C a 28⁰C.

     Tabela 1 – Dosagem da solução nutritiva para pepino japonês semi-hidropônico

Fase de crescimento

Conjunto de nutrientes

g/1000L

Ca (NO3)(Nitrato de Cálcio)

500

KNO(Nitrato de Potássio)

380

KH2PO4 (Fosfato Monopotássico)

300

MgSO(Sulfato de Magnésio)

250

COT (Carbono Orgânico)

50

Mg, B, Cu, Fe, Mn, Mo, Zn (Mix de Micro-Nutrientes Quelatados-EDTA)

7

MnSO(Sulfato de Manganês)

3,4

Fe (Quelato de Ferro-EDDHA)

2

H3BO(Ácido Bórico)

1

Na2MoO(Molibdato de Sódio)

0,17

Fase de frutificação

Conjunto de nutrientes

g/1000L

Ca (NO3)(Nitrato de Cálcio)

630

KNO(Nitrato de Potássio)

620

KH2PO4 (Fosfato Monopotássico)

420

MgSO(Sulfato de Magnésio)

380

COT (Carbono Orgânico)

50

Mg, B, Cu, Fe, Mn, Mo, Zn (Mix de Micro-Nutrientes Quelatados-EDTA)

7

MnSO(Sulfato de Manganês)

5,5

Fe (Quelato de Ferro-EDDHA)

3

H3BO(Ácido Bórico)

1,6

Na2MoO(Molibdato de Sódio)

0,17

Fonte: adaptado de (FURLANI et al, 1999 & FERNANDES; MARTINEZ; OLIVEIRA, 2002) 

O carbono orgânico (COT) descrito na (Tabela 1) foi utilizado principalmente para elevar o pH da solução, por ser muito pouco utilizado em soluções nutritivas, o mesmo pode ser substituído por Carbonato de Potássio. Para soluções que não há necessidade de elevar o pH, o carbono orgânico pode ser retirado da composição da solução.

Mesmo diante de condições climáticas desafiadoras, com temperaturas que chegaram a ultrapassar os 35°C durante o ciclo produtivo, os resultados foram positivos. A produtividade alcançou 22,7 kg/m2, equivalente a uma média de 8,2 quilos por planta, totalizando 2.360 kg de frutos comercializáveis.

 O uso de substrato inerte aliado ao cultivo em ambiente protegido contribuiu para reduzir os riscos fitossanitários e proporcionar um manejo mais controlado da cultura. Além disso, a automatização dos pulsos de irrigação reduziu significativamente a necessidade de mão de obra relacionada ao fornecimento de água e nutrientes.

Os resultados também demonstraram viabilidade econômica, considerando os custos de produção e a comercialização dos frutos, o experimento apresentou lucro líquido de pouco mais de 50%, indicando que o sistema pode representar uma alternativa rentável para produtores interessados em diversificar ou modernizar suas operações.

Diante desse cenário, o cultivo semi-hidropônico do pepino japonês se apresenta como uma alternativa tecnicamente eficiente e economicamente viável. Com manejo adequado das soluções nutritivas e monitoramento constante dos parâmetros de cultivo, é possível obter elevada produtividade, frutos de melhor qualidade e mais regularidade de produção ao longo do ano. Os resultados demonstram que a semi-hidroponia pode ser uma importante ferramenta para aumentar a eficiência produtiva, reduzir limitações relacionadas ao solo e ampliar as oportunidades para os horticultores brasileiros, especialmente em regiões com condições climáticas desafiadoras.

Fonte: ioeste

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