23 jun de 2026
Hidrogel e biochar aumentam eficiência no uso de água na cajucultura do Semiárido Imprimir

Foto: Rubens Sonsol

Os materiais mantêm a umidade próxima às raízes das plantas
  • A avaliação dos insumos mostrou benefícios em diferentes fases do cultivo, especialmente durante a implantação dos pomares.
  • O hidrogel garantiu 100% de sobrevivência de mudas de cajueiro-anão, com uma economia de 46% nos custos de irrigação.
  • Já o biocarvão, ou biochar, melhorou vários parâmetros da produção irrigada de caju, resultando em frutos maiores e mais doces.
  • O preparo do carvão a partir  de resíduos da poda dos cajueiros agrega economia e sustentabilidade à produção.
  • A redução da acidez contribui para que o fruto alcance mercados de maior valor agregado, como o de sucos e doces.
  • A eficácia do biochar varia conforme o clone de cajueiro; logo, as recomendações de manejo devem ser específicas.

 

 

O uso de materiais que mantêm a umidade próxima às raízes das plantas pode ajudar os cajucultores do Semiárido a conviver com a escassez hídrica, que afeta principalmente a fase de implantação dos pomares de cajueiro-anão. Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) avaliaram a aplicação de biochar (biocarvão) e de hidrogel (gel que absorve grande volume de água) em diferentes fases do cultivo e obtiveram resultados positivos na produtividade da água, ou seja, na capacidade de produzir mais com menos recursos hídricos.

Em experimento com irrigação de salvação (técnica agrícola de emergência usada para fornecer água às plantas durante períodos críticos de seca severa ou estiagem prolongada), o hidrogel garantiu a sobrevivência de todas as mudas do clone BRS 226, com uma economia de 46% nos custos de irrigação. Em outro estudo, o biochar melhorou vários parâmetros de produção na cajucultura irrigada, resultando em pedúnculos (parte comercial do caju, conhecida popularmente como maçã) maiores e mais doces no cultivo desse clone, também conhecido como Planalto.

O pesquisador Rubens Sonsol, responsável pelos estudos, explica que, embora o cajueiro seja considerado tolerante à seca, a água é um dos principais fatores limitantes, em especial no primeiro ano de implantação do pomar. Além disso, é comum que o cultivo (predominantemente de sequeiro) seja desenvolvido em solos arenosos (Neossolos Quartzarênicos) com baixa capacidade de retenção de água, em um ambiente cuja estação chuvosa é pouco previsível em termos de início, quantidade e distribuição.

Sonsol pontua que as mudas enxertadas sofrem com o estresse da mudança de ambiente do viveiro para o campo e que os produtores podem perder até metade delas na fase de implantação dos pomares, devido às condições de solo e clima. “Essa mortalidade tem sido um gargalo técnico e econômico na implantação dos pomares. Tem impacto na produtividade porque requer investimento na aquisição de mudas de reposição e retrabalho no campo”, diz.

Ele acrescenta que enquanto a irrigação de salvação recomendada para implantar os pomares é de 25 litros por semana, com o uso do hidrogel foi possível manter todas as mudas vivas com 55 litros por ano. Portanto, Sonsol destaca, a utilização dos condicionadores de solo surge como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, permitindo o uso mais eficiente da água de irrigação.

O pesquisador salienta que o biochar utilizado nas pesquisas foi preparado em fornos de tijolos rústicos (tipo caieira) em ausência de oxigênio, uma tecnologia acessível para pequenas e grandes propriedades. Outra vantagem é que o material pode ser fabricado na propriedade rural com os resíduos da poda dos cajueiros. Além disso, há relatos na literatura de que o biochar melhora a qualidade do solo em outros aspectos como fertilidade; presença de microrganismos benéficos; redução da acidez e sequestro de carbono.

Sobrevivência das mudas

O estudo avaliou o uso do biochar e do hidrogel (polímero hidrofílico) para aumentar a capacidade de retenção de água na zona radicular das mudas, ajudando-as a superar a fase crítica e reduzir a mortalidade no primeiro ano de plantio de um pomar de cajueiro-anão.

O melhor resultado foi obtido com o polímero hidrofílico: 100% de sobrevivência de mudas com uma economia de 46% nos custos de irrigação. A dose ideal foi de 29,56 gramas (g) por cova, que resultou na sobrevivência total com o menor consumo hídrico: 55 litros por planta ao ano. O cientista alerta, contudo, que doses excessivas (acima de 29,5 g) podem elevar a demanda hídrica, uma vez que o polímero retém a umidade de maneira a torná-la menos disponível para as raízes.

Outro experimento simulou as condições de sequeiro, com escassez extrema de água, e avaliou diferentes doses de biochar para a sobrevivência e o crescimento de mudas dos clones CCP 76 e BRS 226, no primeiro ano. A aplicação de quatro quilos (kg) por cova elevou a taxa de sobrevivência de mudas de 26% (grupo controle) para 68%.

“Os estudos comprovaram que o biochar melhora a retenção de água e a disponibilidade de nutrientes em solos arenosos, típicos das regiões produtoras de caju, que naturalmente sofrem com a baixa capacidade de reter umidade”, destaca o pesquisador.

 

Pedúnculo mais doce

Os estudos avançaram para avaliar o impacto do biochar na produtividade da água, no rendimento da safra e na qualidade do pedúnculo (maçã do caju) e da castanha. O experimento focou em plantas já estabelecidas e irrigadas dos clones BRS 226 e CCP 76, os mais cultivados no Ceará, e encontrou resultados bem distintos entre os dois.

Uma das grandes vantagens para o BRS 226 foi o aumento linear e significativo do peso médio do pedúnculo com o aumento das doses de biochar. O estudo estima que, com a aplicação de 4 kg por planta, o clone BRS 226 pôde atingir um peso de pedúnculo similar ao do CCP 76 (cerca de 140 g). O CCP 76 não teve o peso afetado.

O produto também melhorou o sabor no BRS 226, tornando o pedúnculo mais doce e menos ácido. O achado é importante porque esse clone é conhecido por sua tolerância à seca, mas apresenta menor valor comercial do pedúnculo quando comparado ao CCP 76. Sonsol salienta que o biochar pode favorecer o uso do BRS 226 em mercados de maior valor agregado, como o de sucos e doces, o que reduz o desperdício de bagaço e aumenta a renda do agricultor.

O cientista destaca que, conforme os dados do estudo, a eficácia do biochar é dependente do genótipo, o que significa que as recomendações de manejo devem ser específicas para cada clone.

 

O que são condicionadores de solo?

Os condicionadores de solo são insumos que melhoram as propriedades físicas, físico-químicas e biológicas do solo. Alguns deles favorecem a retenção hídrica, entre os quais estão o biochar e o hidrogel.

– Biochar: É um tipo de carvão para aplicação no solo, produzido pela queima controlada de resíduos orgânicos com pouco ou nenhum oxigênio, um processo chamado pirólise. O material rico em carbono e de estrutura porosa promove a retenção de água e de nutrientes no solo. Assim, contribui para o aumento da fertilidade; a presença de microrganismos benéficos; a redução da acidez e a captura de carbono. Os estudos indicam que o biocarvão pode ser preparado utilizando um forno de tijolos rústico (estilo “caieira”), operando com ausência ou presença limitada de oxigênio para realizar o processo de pirólise.

– Polímero hidrofílico: Também chamado de “gel agrícola” ou hidrogel, é um material capaz de absorver e armazenar grandes quantidades de água. Pode ser sintético, geralmente produzido a partir de derivados de petróleo, ou produzido com materiais orgânicos como amido ou celulose. Quando chove ou o solo é irrigado, o polímero absorve água. Depois, ele libera essa água aos poucos para as raízes das plantas.

Verônica Freire (MTb 01.125/CE)

Embrapa Agroindústria Tropical
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Fonte: Embrapa

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