Como foi a descoberta do Trichoderma agriamazonicum
Sousa (foto à direita) relata como a descoberta aconteceu. “No laboratório, estávamos realizando trabalhos de isolamento de microrganismos de diferentes habitats amazônicos. Esse Trichoderma foi isolado a partir da casca de cardeiro (Scleronema micranthum), uma espécie madeireira nativa. O isolado estava preservado em coleção de cultura desde 2004″, observa.
“Quando começamos a identificar taxonomicamente esses fungos do gênero Trichoderma, nos deparamos com essa nova espécie. Caracterizamos o isolado detalhadamente e descobrimos que ele possui dupla importância: para a agricultura, no controle biológico de fitopatógenos, e para a biotecnologia, com a produção de peptídeos que nunca haviam sido descritos na literatura científica”, complementa Sousa.
Para os pesquisadores, esse caso exemplifica o vasto potencial ainda inexplorado da biodiversidade amazônica. Além de ser uma espécie nova para a ciência, T. agriamazonicum produz moléculas originais, com aplicações confirmadas no biocontrole agrícola e atividade promissora contra superbactérias, mas cujo potencial completo ainda está por ser desvendado.
“Com base na coleta desse único microrganismo, identificamos a possibilidade de gerar valor econômico a partir dessas moléculas e transformá-las em bioprodutos comerciais”, destaca Sousa.
A história dessa espécie de Trichoderma ilustra dois pontos críticos para a ciência brasileira. Primeiro, a fragilidade da biodiversidade: o fungo foi isolado de uma árvore madeireira que poderia ter sido cortada e completamente perdida antes que seu potencial fosse conhecido. Segundo, a importância estratégica das coleções biológicas: depois de quase duas décadas preservado, o isolado finalmente revelou seu valor científico e biotecnológico.
“Esse potencial poderia ter sido perdido para sempre se não houvesse a coleção de culturas que mantém o isolado viável ao longo do tempo. Isso reforça a necessidade urgente de investimento contínuo na conservação, pesquisa e aplicação dos nossos recursos genéticos”, enfatiza o pesquisador Gilvan Ferreira. Para ele, descobertas transformadoras muitas vezes levam anos ou décadas para se concretizar e dependem de infraestrutura de conservação biológica para não desaparecerem antes de serem compreendidas.
Foto: Sérgio de Andrade
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