Liberando a agricultura do mandato de segurança alimentar
Por Décio Luiz Gazzoni, Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.
Em 12/3/26 a prestigiosa revista científica Science publicou um editorial intitulado Releasing agriculture from the food security mandate (bit.ly/4s0zoyZ), assinado por Cristoph Müller, líder do Land Biosphere Dynamics working group, vinculado ao Potsdam Institute for Climate Impact Research, da Alemanha.
O editorial argumenta que a agricultura não deveria carregar sozinha a responsabilidade pela segurança alimentar mundial. Embora o setor esteja apto a produzir calorias e nutrientes suficientes para alimentar toda a humanidade, a fome persiste por razões ligadas à pobreza, desigualdade e sistemas socioeconômicos excludentes. O autor chama isso de “armadilha produtivista”: a crença de que aumentar a produção agrícola resolverá o problema da fome, quando na verdade seu cerne é distributivo. Na opinião do autor, essa visão distorce agendas de pesquisa e políticas públicas, usando a segurança alimentar como justificativa moral para evitar regulações ambientais ou redistribuição de riqueza.
Mudar o foco de políticas públicas
Müller destaca que a agricultura enfrenta uma lista extensa de desafios: reduzir emissões de gases de efeito estufa, conter a perda de biodiversidade, limitar o uso de água e nutrientes, melhorar o bem-estar animal e garantir renda digna aos agricultores. Se, além disso, ela for obrigada a manter preços baixos para assegurar a segurança alimentar, surgem metas conflitantes e inviáveis. O editorial defende que a responsabilidade pela segurança alimentar deve migrar para sistemas sociais e econômicos, por meio de políticas de proteção social, programas de nutrição e mecanismos de redistribuição de renda.
O texto enfatiza que liberar a agricultura desse mandato não significa abandonar a pesquisa em produtividade, mas sim permitir que ela se concentre em sustentabilidade, resiliência e bem-estar dos agricultores. A honestidade nos preços dos alimentos é vista pelo autor como essencial: custos ambientais e sociais devem ser refletidos no valor pago, enquanto políticas sociais assegurem que todos possam ter acesso a uma dieta saudável.
Em síntese, Müller propõe uma mudança de paradigma: tratar a fome como um problema de distribuição, não de produção. Segundo ele, só assim será possível conciliar segurança alimentar com preservação ambiental e justiça social, garantindo que a agricultura contribua de forma sustentável para o futuro.
Contraponto
Minha tendência é concordar com o texto, em suas linhas gerais, em especial com o contido na síntese acima. Mas, questiono diversos pontos, entre eles:
Não deveríamos dispor de um cronograma? Implantar primeiro o conjunto de políticas públicas sociais e ambientais, para depois ingressar na agenda de preços agrícolas refletindo a realidade de seu custo de produção?
Retirando-se a priori o compromisso político de alguns países em manter programas de ajuda alimentar humanitária, na esperança de que um novo sistema o substitua, não vai aumentar ainda mais a fome no mundo?
Igualmente, a correção de preços (pela retirada abrupta de subsídios e outros mecanismos) não levará à redução do volume de alimentos dos programas de ajuda, aumentando ainda mais a fome no mundo?
Como engenheiro agrônomo alerto que ganhos de produtividade sustentável, controle de estresses (como pragas ou mudanças climáticas), associados a uma forte consciência de integração da agropecuária com o ambiente, é o melhor caminho para evitar impactos ambientais negativos. Não vejo conflitos, mas sinergia entre esses objetivos. É o que estamos buscando no Brasil.
Sempre defendi a tese de que fome não decorre de déficit de oferta de alimentos, mas da conjugação de dois fatores: a falta de renda para acessar alimentos, e o elevado nível de desperdício, estimado em 31 % (bit.ly/4rVNBNu) entre a colheita e o consumo de alimentos. Façamos um cálculo simples: somos 8,2 bilhões de habitantes no planeta, e a FAO estima em 8 % (673 milhões) o número de cidadãos com fome no mundo (bit.ly/4dJBQGr). Ou seja, apenas reduzindo o desperdício em 25% do atual, já teríamos oferta suficiente de alimentos para aplacar a fome no mundo. Mas, ainda permaneceria o problema distributivista: e a renda para adquiri-los?
Reflexão final
Há outro aspecto, não mencionado no editorial, que eu gostaria de trazer para a discussão sobre segurança alimentar: o que ocorreria se, ao invés de gastos militares em guerras — além do impacto destas sobre o mercado internacional e a reconstrução da infraestrutura destruída – esses recursos fossem usados para alimentação das pessoas famintas?
Vamos aos números. A FAO estima haver 673 milhões de pessoas passando fome no mundo. O World Food Program (bit.ly/4rTUpev) calcula em US$300/ano o valor necessário para alimentar adequadamente uma pessoa faminta. Segundo a média de estimativas de analistas internacionais, a guerra dos EUA e Israel com o Irã pode custar US$200 bilhões em despesas militares, além de US$50 bilhões para reconstrução (se acabar ainda em 2026!), sendo de US$ 400 bilhões o valor estimado (até o momento) para a Guerra Rússia x Ucrânia e de US$ 140 bilhões os embates de Israel na Faixa de Gaza e no Líbano, inclusos os custos de reconstrução. Estes três conflitos se alçam a US$ 790 bilhões.
Dividindo o valor de US$ 790 bilhões por US$ 300/pessoa/ano, verifica-se ser possível alimentar 2,6 bilhões de pessoas durante um ano. Ou seja, apenas os custos de guerra e reconstrução, decorrentes dos conflitos atuais, permitiriam saciar a fome no mundo por 4 anos.
Outro aspecto: a proposta orçamentária para 2027 da Secretaria de Guerra dos EUA é de US$ 1,5 trilhão (bit.ly/4tweMzU). Suficiente para acabar com a fome no mundo por 8 anos. Ou, dito de outra forma, apenas 25% do orçamento militar dos EUA acabaria com a fome no mundo.
Os efeitos do conflito no Oriente Médio já estão sendo sentidos pela agricultura, com avanço acelerado dos custos de energia e de fertilizantes, o que deve aumentar os custos de produção, dificultando ainda mais o acesso à alimentação adequada.
A reflexão proposta é: se lhe fosse dado o poder de decidir, qual seria o melhor uso deste recurso: (1) matar pessoas e destruir infraestrutura, ou (2) salvar centenas de milhões de pessoas da indignidade da fome?
Decio Gazzoni
Sobre o CCAS
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