01 jul de 2026
Da experiência do campo à inteligência artificial: por que aplicativos estão mudando a forma de tomar decisões no agro

Por Vitor Borges

O agronegócio sempre incorporou tecnologia para produzir mais. Máquinas agrícolas, irrigação automatizada, sementes melhoradas e agricultura de precisão transformaram a produtividade nas últimas décadas. Agora, uma nova mudança começa a ganhar espaço dentro das propriedades: o uso de aplicativos inteligentes para apoiar decisões técnicas no campo.

Essa transformação vai além da digitalização de processos. O que muda é a velocidade com que informações agronômicas deixam de depender exclusivamente da experiência acumulada do produtor e passam a ser organizadas, registradas e analisadas continuamente. Em um cenário de mudanças climáticas, aumento dos custos de produção e necessidade de maior eficiência, a gestão baseada em dados tende a se tornar um dos principais diferenciais competitivos da agricultura.

Esse movimento acompanha uma tendência global. O relatório The Future of AI in Agriculture, publicado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aponta que a inteligência artificial vem ampliando a capacidade de monitorar lavouras, identificar pragas, otimizar irrigação e apoiar decisões agronômicas em tempo real. Segundo a entidade, essas ferramentas devem desempenhar um papel cada vez mais relevante na produção de alimentos diante da necessidade de elevar a produtividade utilizando menos recursos naturais (FAO. The Future of Artificial Intelligence in Agriculture. Roma, 2024).

Ao mesmo tempo, um levantamento da McKinsey & Company mostra que produtores que incorporam tecnologias digitais conseguem melhorar a eficiência operacional, reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade das operações agrícolas. O estudo destaca que o maior benefício da agricultura digital não está apenas na coleta de dados, mas na capacidade de transformar essas informações em decisões práticas durante o ciclo produtivo (McKINSEY & COMPANY. Agriculture’s Connected Future: How Technology Can Yield New Growth. 2024).

Embora essas pesquisas evidenciem o potencial da agricultura digital, a adoção de aplicativos no campo ainda enfrenta um desafio importante: disponibilizar informação não significa, necessariamente, gerar melhores decisões. Na prática, muitos produtores possuem acesso a diferentes ferramentas, mas ainda encontram dificuldade para interpretar os dados e convertê-los em ações agronômicas.

Foi justamente a partir dessa necessidade que desenvolvi o que denomino Framework M.A.N.E.J.O., uma metodologia construída a partir da observação de milhares de dúvidas recorrentes apresentadas por produtores rurais ao longo dos últimos anos.

O framework organiza o processo decisório em seis etapas complementares:

M – Monitoramento contínuo: registro frequente das condições da lavoura por imagens, observações de campo e indicadores agronômicos.

A – Análise técnica: interpretação das informações coletadas para identificar riscos relacionados a pragas, doenças, nutrição vegetal ou estresse hídrico.

N – Normalização das decisões: adoção de protocolos técnicos padronizados para reduzir decisões baseadas exclusivamente na percepção individual.

E – Execução orientada: implementação das recomendações agronômicas de forma planejada e documentada.

J – Jornada de acompanhamento: monitoramento contínuo da resposta da cultura às intervenções realizadas.

O – Otimização permanente: utilização dos resultados obtidos para aperfeiçoar as decisões ao longo dos ciclos seguintes.

Esse modelo parte de um princípio simples: aplicativos agrícolas não substituem o conhecimento técnico do produtor ou do agrônomo. Eles ampliam a capacidade de registrar informações, identificar padrões e reduzir o tempo entre a observação do problema e a tomada de decisão.

Na cultura do maracujá, por exemplo, onde concentrei grande parte da minha atuação técnica, essa abordagem mostrou impactos relevantes. Enquanto dados do IBGE apontam produtividade média nacional próxima de 15,6 toneladas por hectare, propriedades que adotaram manejo sistematizado, acompanhamento contínuo, protocolos padronizados e monitoramento permanente alcançaram produtividades entre 40 e 45 toneladas por hectare. Embora diversos fatores influenciem esse resultado — como clima, solo, variedade e manejo — a organização das informações e a rapidez na tomada de decisão mostraram-se componentes importantes desse desempenho.

Dentro desse contexto foi desenvolvido o Manejo Pro, utilizado como plataforma de apoio para aplicação prática do Framework M.A.N.E.J.O. O aplicativo reúne inteligência artificial, banco de conhecimento técnico, registros de campo e acompanhamento das operações agrícolas em um único ambiente. Mais do que oferecer respostas prontas, seu objetivo é estruturar informações para apoiar decisões técnicas durante todo o ciclo produtivo.

A tendência é que esse tipo de ferramenta se torne cada vez mais comum à medida que a agricultura incorpora inteligência artificial, visão computacional, sensores e análise preditiva. No entanto, seu verdadeiro valor não estará na tecnologia em si, mas na capacidade de integrar conhecimento agronômico, gestão da propriedade e tomada de decisão baseada em evidências.

O futuro da agricultura digital não será definido pelos aplicativos capazes de gerar mais informações, mas por aqueles que conseguirem transformar informação em decisão técnica de qualidade. A tecnologia continuará evoluindo rapidamente. O diferencial permanecerá sendo a capacidade de utilizá-la para produzir com mais eficiência, previsibilidade e rentabilidade.

*Vitor Borges é especialista em manejo agrícola, produtividade e rentabilidade no agronegócio. Atua no desenvolvimento de metodologias para gestão da produção rural, manejo de culturas, irrigação, nutrição vegetal e controle fitossanitário, com foco na integração entre conhecimento agronômico e tecnologias digitais aplicadas ao campo.

Fonte: ioeste

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